13 março 2016

Mabelle e o Quarto

Segunda Parte: Cinza
XVI - O Quarto


Entre. Seja bem-vindo. Acomode-se.

Não repare na bagunça. Dê-me só um segundo, irei escondê-la sob a cama, dentro do armário, nos cantos da gaveta.

Não olhe ai! Há sujeira acumulando pelos cantos. Poeira acumulada entre os anos. Aprendi a escondê-la muito bem.

Pronto.

Fotografias alegres nas paredes. Ursinhos de pelúcia sobre a cama. Flores frescas no vaso.

Assim está bom?

Sente-se. Vamos conversar sobre amenidades. Vamos sorrir e fugir de assuntos sérios. Está tudo bem, obrigada. Veja, estou sorrindo. Veja, estou arrumada.

Só não abra os armários da minha mente, as gavetas da minha alma. Tudo o que encontrará será bagunça por baixo da aparente limpeza e organização. Conforme-se com aquilo que lhe entrego, com o que lhe digo. Mantemos a aparência. Finjamos a alegria que não temos.

Eu lhe disse. Sei esconder bem a sujeira que acumulei entre os anos.
25 janeiro 2016

Mabelle e o Oceano

Segunda Parte: Cinza
XV - O Oceano

Boio sobre o oceano.
O céu límpido e azul sobre mim. Vejo gaivotas voando. Gostaria de me juntar a elas. Bater minhas asas, sentir o vento, conhecer o céu. Mas o oceano não deixa. Ele pesa sob mim e se infiltra em meu corpo. Prende-me a ele.
A água me puxa. Sente meu desejo de liberdade e decide afoga-lo.
Afogando-me no caminho.

Bato os braços. Luto contra a correnteza.
Mas só me

 A
     F
       O
          G
             O

A água me puxa para baixo, para longe da luz, para longe do céu, para longe das asas dos pássaros.
Parece que concreto está preso aos meus pés, guiando-me cada vez mais fundo na escuridão do oceano.

Onde não há som;

Onde não há luz;

Onde não há vida;

Onde não há céu.
30 dezembro 2015

II - Remetente Mabelle

Querida Solidão*,

Ao tentar encontrar-me, perdi-me. Não sei quem sou ou quem fui. Sei que meu peito arde e meu coração chora por mim. Estou em um abismo, na fronteira do final; posso morrer ou viver. Como pôde dizer-te amiga e mudar dos meus sonhos o final?

As pessoas são o que não vemos, atrás de máscaras de mentiras se escondem com as verdades. Em mim, não há mais disfarces, já não tenho alma a vestir, nada em mim restou. A vida passa em minha frente, estou só. Mas hei de seguir.

Solidão, você permaneceu ao meu lado. Companheira, a esperar a felicidade. Companheira, envolvendo-me em lágrimas. Companheira, sugando-me as vontades. Como pôde brincar comigo? Como pôde mudar dos meus sonhos o final? Nada de mim restou, dos meus sonhos, nenhum perdurou.

Todo amor é uma dor; chegam sem pedir, vão sem se despedir. A sorte traiu-me, como uma amante infiel. Apenas há dor em meu coração, uma voz a me sussurrar aos ouvidos mentiras de amor.

Sou um reflexo de mim, meu nome uma lembrança, minha voz um eco no silêncio vazio. Sonhando acordada, uma criança assustada. Uma alma quebrada.

Grito, choro e morro, lento, no agoniante silêncio. Esqueci-me de mim. Estou cansada de confundir a realidade, de sonhar sem realizar. Em cada encontrou há uma ilusão, em cada história há um final. Sou apenas uma fraca a luz a apagar na imensidade.

Como pôde deixar isto acontecer? Como pode estar tão perto e tão longe? Como pôde mudar de meus sonhos o final? Posso não saber quem sou. Posso estar morrendo. Frágil chama de uma vela a mercê do vento.

No que me tornei por você?


Mabelle




*carta com forte inspiração nas músicas da Belinda