08 junho 2017

Mabelle Transborda

Segunda Parte: Cinza
XVII - Transbordo

Minhas linhas são tortas. Meu fluxo de palavras desconexo. Perco-me entre pontos e vírgulas, ultrapasso a margem, esqueço-me dos parágrafos. Diserto poesias emaranhadas em tristes sorrisos, envoltas em agonia latente.
Esvazio minha mente cansada em frases que não fazem muito sentido. Eu não faço sentido.
Sou tantas coisas e o nada ao mesmo tempo. Transpareço força, mas sou fraca por dentro.

Sou reticências de um texto incompleto.

Não há para onde fugir dos meus pensamentos. Não há como tampar os ouvidos, silenciá-los. Continuam repetindo-se em minha mente, como um disco riscado. De novo e de novo e de novo e de novo e de novo e de novo e de novo e de novo e de novo e de novo e de novo e de novo e de novo e de novo e de novo 

e de novo

Palavras em brasa, como lâminas perfurando, lentamente, minha pele, minha alma e minha mente.
Minha mão segura a caneta com leveza. Não as sinto. Como se não fossem minhas. Meus olhos olham fixamente para o papel branco de linhas azuis até perderem o foco. Respiração suspensa, a espera de uma salvação. Alguma inspiração para transbordar os sentimentos acumulados no peito
Suspiro. Água embaçam-me os olhos, salgadas e frias. Elas escorrem pelo rosto, uma correnteza particular sem fim.
Transbordo.
Tristeza. Dor. Agonia. Solidão. Todos os sentimentos que me exaurem, que me sufocam, esvaindo-se em lágrimas, aliviando a dor que se instalara em mim há mais tempo que possa contar.


13 março 2016

Mabelle e o Quarto

Segunda Parte: Cinza
XVI - O Quarto


Entre. Seja bem-vindo. Acomode-se.

Não repare na bagunça. Dê-me só um segundo, irei escondê-la sob a cama, dentro do armário, nos cantos da gaveta.

Não olhe ai! Há sujeira acumulando pelos cantos. Poeira acumulada entre os anos. Aprendi a escondê-la muito bem.

Pronto.

Fotografias alegres nas paredes. Ursinhos de pelúcia sobre a cama. Flores frescas no vaso.

Assim está bom?

Sente-se. Vamos conversar sobre amenidades. Vamos sorrir e fugir de assuntos sérios. Está tudo bem, obrigada. Veja, estou sorrindo. Veja, estou arrumada.

Só não abra os armários da minha mente, as gavetas da minha alma. Tudo o que encontrará será bagunça por baixo da aparente limpeza e organização. Conforme-se com aquilo que lhe entrego, com o que lhe digo. Mantemos a aparência. Finjamos a alegria que não temos.

Eu lhe disse. Sei esconder bem a sujeira que acumulei entre os anos.
25 janeiro 2016

Mabelle e o Oceano

Segunda Parte: Cinza
XV - O Oceano

Boio sobre o oceano.
O céu límpido e azul sobre mim. Vejo gaivotas voando. Gostaria de me juntar a elas. Bater minhas asas, sentir o vento, conhecer o céu. Mas o oceano não deixa. Ele pesa sob mim e se infiltra em meu corpo. Prende-me a ele.
A água me puxa. Sente meu desejo de liberdade e decide afoga-lo.
Afogando-me no caminho.

Bato os braços. Luto contra a correnteza.
Mas só me

 A
     F
       O
          G
             O

A água me puxa para baixo, para longe da luz, para longe do céu, para longe das asas dos pássaros.
Parece que concreto está preso aos meus pés, guiando-me cada vez mais fundo na escuridão do oceano.

Onde não há som;

Onde não há luz;

Onde não há vida;

Onde não há céu.